Pico Paraná Via Trilha da Conquista

In Trilhas & Hiking, TRILHAS/AVENTURAS by Leandro Knobloch2 Comments

Há duas trilhas que levam até o cume do Pico Paraná (PP) a trilha original, conhecida como Trilha da Conquista (TC), que foi batizada assim justamente pelo fato ter sido a via usada na primeira vez que o cume foi alcançado, no ano de 1941, hoje em dia essa via é pouco usada, praticamente todos os trilheiros usam a nova trilha, conhecida como Caminho das Almas.

Nós fomos pela trilha original e retornamos pela nova. O motivo da maioria das pessoas optarem pelo caminho das almas está na facilidade, principalmente pela elevação acumulada do percurso que é consideravelmente menor, na TC é preciso subir primeiro até o cume do Caratuva com 1851 metros, apenas 26 metros mais baixo que o PP, e depois praticamente descer todo o morro para então subir até o PP. A vista que se tem do cume do Caratuva é fantástica, para nós foi uma opinião unanime, é a vista mais bonita do circuito.

   Fazenda PP x Caratuva

  Iniciamos o percurso a partir da Fazenda Pico Paraná, chegamos ao local por volta das 11 hs da manhã, a Kombi, Lucas, Tai e eu. Com as cargueiras preparadas assinamos a ficha de check in e começamos nosso caminho rumo ao ponto culminante do sul do país. Antes de subir planejamos a nossa rota, como optamos por fazer a trilha original decidimos que iríamos estabelecer nosso acampamento no cume do Caratuva, sabíamos que teríamos um dia de caminhada com muita elevação, bora pra trilha.

 

   Já na saída ganhamos a companhia de uma cadelinha que seguiu por todo o caminho conosco até o cume. O início do caminho é bem aberto e desde os primeiros metros já se começa a subir, praticamente em momento algum a caminhada é plana. O primeiro mirante da trilha é a pedra do grito, que pode ser um bom ponto para dar uma descansada caso seja necessário, a vista por hora é bem limitada visto que a altitude ainda baixa. Da pedra do grito partimos em direção ao local conhecido como Lagoa Seca, a trilha começa a se modificar com a proximidade desse segundo ponto, ela vai ficando bem fechada, com uma vegetação bem densa, conhecida por mim como Caraá, uma espécie de taquara bem fina, em alguns pontos é necessário usar os braços para ir abrindo o caminho, caso haja barracas, isolantes ou algum material posicionado de forma horizontal sobre a cargueira isso pode significar um pouco mais de dificuldade neste trecho, mas em contrapartida essa é a parte mais plana do trilha. A Lagoa Seca é uma área com acumulo de água da chuva, uma espécie de banhado e ponto de orientação da trilha.

   Da Lagoa a nossa próxima parada foi no Getúlio, local bem conhecido pelos frequentadores do parque, muito usado como base de acampamento, seguimos então até lá. Cerca de 40 minutos e chegamos a esse ponto o local é bem aberto não há vegetação alta no entorno, ou seja, não tem sombra, o visual é bem bacana, com um campo de 360 graus das imediações e uma vista frontal para o Caratuva, há um bom espaço para armar barracas. Fizemos um lanche e seguimos nosso caminho. Logo a frente há o local onde se dividem as trilhas, duas placas em direções opostas indicam Caratuva para um lado e Pico Paraná para o outro, lembrando que essa indicação faz menção ao trajeto atual, sendo possível acessar o PP pelo Caratuva, seguimos então em direção ao Caratuva.

  

   Nos abastecemos de água em uma bica próxima e pegamos então o trecho mais complicado do dia, deste ponto em diante até o cume o terreno começa ter uma elevação mais acentuada, exigindo mais das pernas e bom condicionamento físico. Alcançamos nosso objetivo por volta das 17hs e pela primeira vez durante a trilha toda conseguimos avistar o PP, a vista do alto do Caratuva é deslumbrante, observar todo o complexo da Serra do Ibitiraquire e ainda estar de cara para a maior montanha do sul do país é algo de arrepiar, foi um momento de êxtase aquele, sabíamos que teríamos uma noite incrível, pois além de todo o contexto seria noite de lua cheia.

   A tarde já caía corremos para armamos rapidamente nosso acampamento e depois fomos para o lado oeste apreciarmos o por do sol do alto da montanha, foi incrível admirar esse espetáculo estando acima das nuvens. O sol se foi e ficamos fazendo alguns registros, caminhamos então para o nosso acampamento e quando olhamos novamente para o PP uma das cenas mais belas das nossas vidas estava surgindo, única e só pra nós, uma borda cor de fogo começava a apontar por trás da “cabeça” do pico e ela foi subindo lentamente, uma lua vermelha incandescente formava o cenário perfeito, algo não captável por câmera alguma, deixamos os equipamentos em modo automático fazerem a sua parte e nós ficamos lá em um estado misto de euforia e contemplação e um sentimento mútuo de gratidão pela graça daquele momento único.

  

Foram longos minutos observando a lenta e gradual mudança de cor da Lua de tons quentes ao frio prateado, fria ficou também a noite, as estrelas não eram tantas, pois a Lua bem ali, pouco acima de nós fez com que a noite não chegasse no alto da montanha, era possível enxergar todo cenário que havíamos admirado durante o dia, mas naquele momento em tons de prata.

Pra aquecermos fomos preparar uma janta, todos em volta do fogo com um pouco de conhaque pra ajudar a aquecer o peito, logo após nos recolhemos, era preciso estar disposto para a segunda parte da nossa conquista. Assista aqui ao vídeo do nosso primeiro dia e aproveite para se inscrever no nosso canal.

    Segundo Dia Caratuva x Pico Paraná

   Acordamos cedo, dessa vez quem vinha por trás do PP era o sol, nos dando a certeza de um dia quente e ensolarado, passamos algum tempo editando o material do dia anterior, tomamos café, desarmamos o acampamento, refizemos as cargueiras e simbora descer! Sim, depois de subirmos a praticamente a mesma altura do PP teríamos que descer, tudo bem já sabíamos disso, a descida é em meio a uma vegetação bem fechada de caratuvas, que dominam o local, ao todo descemos 454 metros.

   Após o término da descida encontramos com a outra trilha, deste ponto em diante os caminhos passam a ser o mesmo. Dali pra frente o cenário também muda e ganha em emoção, o PP passa a estar o tempo todo a nossa frente, são vários os pontos onde há grampos nas rochas, como uma espécie de escada, alguns bem verticais com cordas e correntes para auxiliar na escalada. Antes de chegar ao Pico há dois pontos conhecidos e bastante utilizados como base de acampamento, o A2 e o Abrigo de Pedra, pra ser sincero são ambientes um pouco desagradáveis, sujos e com forte cheiro de fezes, mas como no alto do PP o espaço é pequeno para o número de pessoas que sobem a trilha aos finais de semana e feriado então as vezes não haverá escolha, e você terá que acampar por ali.

   Já quase chegando ao cume do morro não há mais grampos apenas grandes pedras que exigem os últimos esforços das pernas, vale dar aquele gás e chegar com tudo ao teto do sul do país. Foi assim que chegamos, quase que correndo nos últimos metros, ao por os pés na parte alta da rocha a alegria e entusiasmo espantam todo o cansaço, a vista é incrível a 1877 metros de altitude, toda a serra está ali aos pés do morro, o litoral também pode ser visto lá do alto, cidades como Antonina, Morretes, Paranaguá estão “logo ali”.

  

   A mudança do clima é repentina, em poucos minutos o cenário muda, camadas de ar trazem nuvem e de repente a neblina deixa tudo encoberto, mas com a mesma velocidade se desfaz reconstruindo o cenário, o vento é constante no alto da montanha é comum também estar acima das nuvens, o que torna o ambiente ainda mais especial e você literalmente entenderá o significado da expressão “estar nas nuvens”. (Assista ao vídeo do nosso segundo dia e a chegada ao PP aqui)

 

   Bem, depois de desfrutar o privilégio de estar lá no alto, de sentir a recompensa pelo esforço, da superação de ter vencido o caminho e absorver a energia única que vem da montanha você ainda pode deixar o seu registro no livro cume. Para quem quiser acampar no topo do PP é bom se programar, pois o espaço é pequeno e comporta poucas barracas, muitas pessoas fazem a trilha a noite nos dias que antecedem feriados e finais de semana, então se você pensa em acordar cedo para garantir seu lugar saiba que alguém já estará lá, a dica é tentar ir durante a semana.

Perdemos a noção do tempo enquanto estávamos no alto da montanha, o que é sem dúvidas maravilhoso, mas…bem ainda haviam 9 km para retornar e o dia estava pequeno, não conhecíamos o caminho que retornaríamos, pois usaríamos na volta o Caminho das Almas, sabíamos apenas que inevitavelmente terminaríamos a trilha a noite e foi…mas foi bem além do que imaginamos, já estávamos cansados e o ritmo diminuiu além disso carregávamos peso extra, pois estávamos com os equipamentos de fotografia e filmagem, o caminho apesar de ser relativamente plano é feito boa parte dele em terreno com muitas raízes e como a luminosidade era pouca a atenção tinha que ser redobrada pra evitar queda ou torção, quando por fim terminamos a trilha já passavam das 23hs.

Missão cumprida, fomos e voltamos muito bem, foram dois dias inesquecíveis nessa que sem dúvida é uma das trilhas de montanha mais incrível do país.

  

   

O Pico fica entre os municípios de Antonina e Campina Grande do Sul. Distante 99 km da capital.

De ônibus–> A Viação Graciosa tem 5 horários por dia, saindo da rodoviária de Curitiba e indo até Antonina, o tempo médio de viagem é de 1 hora. Os preços variam de R$ 25,00 a R$ 35,00. Chegando lá é preciso pegar um taxi/uber a distância é de 35 km.
Há também da possibilidade de pegar um ônibus da Viação Princesa dos Campos que vai para Terra Boa aí tem que descer na BR e caminhar o 7km até a Fazenda.

De Carro –> Seguir pela BR-116 em direção a São Paulo por cerca de 90 km, depois é preciso pegar uma via secundária que fica exatamente antes de cruzar a ponte sobre o Rio Tucum, a saída fica a direita, é preciso ter atenção para não passar. Depois siga por cerca de 7km em direção a “Fazenda Pico Paraná ou Fazenda Rio das Pedras”

Camping Fazenda Pico Paraná –> É cobrado a taxa de R$ 10,00 por pessoa para acessar o pico através da fazenda essa taxa já inclui a estadia no camping caso queira ficar na base da montanha.

Camping Fazenda Rio das Pedras –> É cobrado R$ 5,00 por carro para acessar a trilha. O local oferece várias formas de acomodação, acessar o site para informações sobre valores e disponibilidade.

Campismo Selvagem –> É permitido acampar na montanha em qualquer área, há vários pontos onde é possível armar barracas.

Localização: Parque Estadual Pico do Paraná. Divisa dos municípios de Antonina e Campina Grande do Sul.

Tamanho da Trilha: 9,1 km (apenas ida) medição realizada pela Trilha da Conquista.

Altitude Máxima: 1878 metros.

Altitude Mínima: 967 metros.

Subida Acumulada: 1428 metros.

Descida Acumulada: 521 metros.

Dificuldade: Moderada/Avançada.

PP Trilha da Conquista

 

Comments

  1. Mochileiro Roots

    Se nao me engano, foi em 2007, metade do Caratuva pegou fogo por causa de mochileiros beginners. Por isso, hoje e proibido fazer fogo no Parque Estadual.

    1. Author
      Leandro Knobloch

      Pois é meu amigo, infelizmente coisas assim acontecem e leva muito tempo para que se retome parte do prejuízo causado. Grande abraço e boas trilhas!

Leave a Comment